As Rosas também falam
O fantástico mundo de JH.
March 04, 2008 |
Há coisas na vida que nos despertam a curiosidade sem que sejam, no mínimo, curiosas. Eu, por exemplo, acho inexplicável a existência de gêmeos, cabelos ruivos e contorcionistas. Mas entre todas as coisas que julgo de extremo interesse nenhuma é tão inefável quanto à hiperatividade. Mais instigante, ainda, que a hiperatividade infantil é a fase adulta dessa criança que nunca teve o mínimo senso de comportamento. Acho que perdi muito tempo da minha vida sendo uma criança apática, sem criatividade para brincadeiras e habilidade para subir em árvores.
Minha infância foi um tanto quanto atípica. Fui uma criança manhosa, preguiçosa, sonolenta. Lembro que costumava ir à missa com meus pais e, claro, a melhor parte era quando o padre permitia o povo sentar (ou, pelo menos, ficar de joelhos), enquanto todo o resto das crianças insistia em brincar nas escadas. Era a mais tontinha de todas as primas, que adoravam brincar na rua. Insistia para brincarmos dentro de casa, mas meu voto era sempre único, portanto, acabava ficando sentada na calçada da minha avó, admirando suas capacidades inventivas, mesmo que muitas vezes acabassem em machucados. Mas eu queria ser como elas, ter idéias como elas, criar brincadeiras como elas. Aquilo me atormentava. Sofria com cada salto que davam de cima de uma enorme pedra, cada rebolada de bambolê, cada corda pulada. Sentia-me humilhada diante daquelas situações.
Embora essa frustração nunca tivesse me rendido uma conta de analista, meu desabafo agora se faz necessário. Gosto de observar as atitudes de meus amigos e, uma vez ou outra, costumo imaginar como eram quando crianças. De todos os seres estranhos que já criei para as pessoas do meu círculo de convivência nenhum é tão interessante quanto à criança do João Henrique. Não é preciso desmembrar a obra de Freud para perceber que o João tem vestígios fortíssimos de uma infância regada pela hiperatividade. É só notar que qualquer garrafa pet ou objeto pontiagudo é capaz de entretê-lo por horas, como se ele ainda fosse uma criança desafiando o perigo, brincando com o proibido.
Quando o Nada Chega organizou o show da Ultramen (02 de junho de 2007), alguém (provavelmente, o Herbert) teve a grande idéia de sairmos pela cidade de carro buzinando, com dois cartazes “Vamo, diabaiada!”, no jipe do Ivan, que surgiu na hora, guiado por uma pessoa que não sei nome (deve ser Cabritinho, Carneirinho, Cavalinho ou algum nome de animal no diminutivo que os guris de vez em quando falam e as gurias nunca sabem quem é). O banco do carona estava vago, o que significava que alguém poderia ir junto, e é aí que entra a diferença entre ter sido uma criança pateta e uma de raciocínio rápido. Antes que eu pudesse pensar em dar a banda no jipe, o João Henrique pulou no banco, roubando meu possível futuro lugar. Não formei nenhuma opinião sobre o tal motorista, mas, pela cara, vi que eles iam se dar bem.
Entrei no carro de alguém, com mais algumas pessoas, e seguimos o caminho atrás do jipão. Alguns carros ligaram o pisca alerta, enquanto outros, timidamente, andavam em ziguezague. Ao contrário do João Henrique, eu não observava a reação das pessoas na cidade, muito menos equilibrava um copo de cerveja na mão. Minha atenção estava voltada a ele, aquele maldito ser de atitudes imprevisíveis e incalculáveis. Foi aí que o jipe começou a alargar o ziguezague que vinha fazendo, até começar a passar por cima de calçadas e canteiros que vinham pela frente. Eu sabia de quem era aquela idéia. Sabia qual dos dois era capaz de pensar em tão inusitada atitude. Senti que a realidade, personificada, sentou ao meu lado, no banco do carro, e disse que eu jamais seria como ele. Naquele momento, tive consciência das minhas limitações. Mesmo que estivesse sentada no lugar do João Henrique, poderia recorrer ao meu livreto de salmos e orações que jamais conseguiria atingir tamanha idéia. Sem ele saber, fez uma criança muito triste naquele dia. O banco do carro transformou-se na calçada da minha avó. Fiquei de cabeça baixa, enquanto o João Henrique, humilhantemente, mandava o motorista passar por cima dos canteiros.
…
Fico pensando em todas as mães de crianças hiperativas que, heroicamente, conseguiram sobreviver e contribuir para a nossa geração. Definitivamente, o mundo seria um tédio sem seus filhos.
Comentários
taí, gostei. totalmente inusitado esse tipo de artigo por aqui, muito bom! e viva os hiperativos criativos construtivos, e parabens as respectivas maes!
Rô!!!
Amei, já tinha ouvido alguns comentários, muito bons, sobre a tua crônica, mas não imaginava que era tão boa assim!!!!
Amiga, escreva mais, por favor…
Ahhh… o João é o máximo!
Bjão.


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Excelente!!!
Me lembro como se fosse hoje, aquele jipe fazendo um enorme ziguezague, e o João Henrique de co-piloto…
Parabéns Rô!! Conseguiste descrever o João Henrique como ninguém.
Muito Bom!!!
Bju da Rê!!!